Eli Wallach e a perda de um pedaço da história do cinema

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Eli Wallach se foi à madrugada de ontem, dia 24/06/2014, aos 98 anos. Para a atual geração, talvez o nome não soe tão forte, mas sua importância é tamanha à história do cinema. Sua morte não só é a perda de um grande ator estadunidense, como também – e principalmente – a queda de um dos últimos tijolos do muro de um saudoso episódio do cinema mundial.

Wallach era a última parte viva do movimento que criou o Actors Studio de Nova Iorque e, logo em seguida, alicerçou o Método, responsável por uma revolução na forma de atuação tanto no Teatro quanto no Cinema pós 2ª Guerra Mundial. O Método consiste em um conjunto de técnicas baseado originalmente no Sistema Stanislavski, que exigem do ator que desenvolva e encontre dentro de si mesmo as emoções e pensamentos da personagem, de forma a tornar sua criação crível no mundo real. Só para registro, seguem os nomes de outros atores que consagraram o Método: Dustin Hoffman, Ellen Burstyn, Cristopher Walken, Jack Nicholson, Al Pacino, Robert De Niro e Marlon Brando. Graças ao Método, o cinema também ganhou histórias fascinantes sobre o processo de criação de personagens, como a preparação de De Niro para interpretar Max Cady em Cabo do Medo (1992) ou a construção de Brando para Vito Corleone no primeiro O Poderoso Chefão (1972).

O début de Wallach no cinema se deu em 1956, em Baby Doll (“Boneca de Carne”), conduzido pelo grande amigo, fundador da Actors Studio e diretor icônico Elia Kazan (“Sindicato de Ladrões” e “Uma Rua Chamada Pecado”) em associação ao roteirista – também parceiro de longa data – Tenessee Williams (“Gata Em Teto de Zinco Quente”). Também com Williams, só que no Teatro (onde o ator insistia em dizer ser seu verdadeiro lugar), Wallach chegou a ser premiado com o Tony de melhor ator pela peça “Rosa Tatuada”, ainda em 1951.

Mas foi a partir da década de 1960 que Wallach fixou seu nome nos rincões de Hollywood. Ele foi o vilão Calvera que aterrorizou um povoado em Sete Homens e Um Destino (1960), a versão hollywoodiana dos Sete Samurais de Kurosawa; protagonizou a famosa cena de dança em Os Desajustados (1961), ao lado da amiga de longa data, Marilyn Monroe, no último filme protagonizado pela musa em vida; soube rir de si mesmo ao encarnar Mr. Freeze no seriado sessentista de Batman e continuou trabalhando até pouco tempo atrás, tendo participação relevante na trama da continuação de Wall Street, em 2010.

De cima para baixo: 1) Calvera e sua gangue encarando Yul Brynner em Sete Homens e Um Destino; 2) Charlie Gant em A Conquista do Oeste e 3) o compreensivo e sorrateiro Don Altobelo. - os vilões de Wallach são sempre mais do que a primeira impressão possa revelar.

De cima para baixo: 1) Calvera e sua gangue encarando Yul Brynner em Sete Homens e Um Destino; 2) o ganancioso Charlie Gant em “A Conquista do Oeste” e 3) o compreensivo e sorrateiro Don Altobelo de “O Poderoso Chefão III” – os vilões de Wallach são sempre mais do que a primeira impressão possa revelar.

Mas foi com um personagem específico que Wallach marcou época.

Sergio Leone revitalizou o Western a partir de Por Um Punhado de Dólares (1964), inaugurando a geração spaghetti, pontuada por personagens não tão heroicos, mais crus e cruéis, cobertos pela poeira do deserto e sujos do sangue de seus inimigos. Ainda assim, Leone manteve seus protagonistas sobre o pedestal da invencibilidade. Por debaixo da barba por fazer e do olhar implacável, o “Homem Sem Nome” de Clint Eastwood guardava aquele mesmo ar super-heroico do caubói limpinho clássico de John Wayne, inatingível e infalível.

Foi somente em Três Homens em Conflito (1966) que essa marca mudou. À época das gravações, Eastwood soltou o seguinte comentário a respeito: “No primeiro filme, era só eu. No segundo, éramos dois. Agora, somos três. Vou acabar com um destacamento de cavalaria.” Clint, apesar de continuar a ser o Homem sem Nome, é aqui chamado de ‘Blondie’ ou “lourinho”, o Bom. Lee Van Cleef, ‘Sentenza’ ou ‘Olhos de Anjo’ é o Mau (e mau mesmo). O dono do filme, contudo, é outro: É o Feio, representado por Eli Wallach:  TUCO BENEDICTO PACIFICO JUAN MARIA RAMIREZ.

Wallach conquistou a confiança de Leone e utilizou o Método para trazer a Tuco uma falibilidade humana que ainda não fora vista nas obras do diretor. Assim, Tuco é o elemento novo na narrativa macarrônica de Leone. Enquanto Blondie e Olhos de Anjo mantêm suas poses icônicas, com expressões duras e caras de poker, Tuco é mais falho e menos fantasioso (mas tão fantástico quanto). Tuco é o tom de cinza entre o branco e o preto, veste-se em trapos mexicanos, é falastrão e whiskaholic, católico convicto nos momentos de temor e um espertalhão de grande carisma a qualquer hora.

Enquanto os olhares de Eastwood e Van Cleef dizem "sou mais rápido e mortal que você" o de Wallach parece gritar "para que lado eu corro depois de atirar?"

Enquanto os olhares de Eastwood e Van Cleef dizem “sou mais rápido e mortal que você” o de Wallach parece gritar “para que lado eu corro depois de atirar?”

Em 2010, o jornalista do The New York Times e sobrinho-neto de Wallach, A. O. Scott, registrou breves momentos do ator no alto de seus 95 bem humorados anos, no documentário “Na Casa de Eli Wallach”. No curta, o ator se lembra como ontem de sua conduta no set de Três Homens em Conflito, movido pelo Método e encarnando o personagem a ponto de pensar consigo mesmo, após uma violenta cena em que Tuco acabava matando seu adversário: “Jesus, fiz uma coisa horrível! Mas valeu a pena!

Por mais que a trinca de ases do filme dividisse momentos de trapaça e crueldade, no seu modo desajeitado e desbocado Tuco reservava uma dignidade rara para gente traiçoeira. Tuco continua sendo um ‘hijo de puta‘ (até Blondie o é em se tratando de um filme de Leone, e Tuco deixa isso bem claro a certa altura da projeção), mas ganha contornos mais próximos da vida real na interpretação errática de Wallach, que ainda traz ao personagem uma marca do passado, na dor de suas desavenças com o irmão.

Wallach fez o espectador acreditar que um simples homem poderia rivalizar com dois épicos e até então intocáveis rivais.

“Parece que tenho uma vida dupla”, disse há algum tempo Eli Wallach ao olhar para trás e rever sua carreira. “No teatro, sou homenzinho, ou o homem irritado ou o homem incompreendido. No cinema, passo a vida sendo escolhido para papéis de mau.” Isso é verdade. Wallach ficou marcado por homens maus. Mas que culpa tem o cinema se encontrou no ator alguém capaz de mudar a regra do jogo? Seus vilões eram mais do que apenas maus, senhor Wallach: eram falhos, complexos e fascinantes seres humanos.

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