Planeta dos Macacos: O Confronto

Caesar

Existe na teoria dos jogos o Dilema do Prisioneiro. Nesse exercício existem dois suspeitos que foram presos e recebem separadamente a seguinte proposta:

     – Se nenhum dos dois confessar o crime, eles serão presos por apenas 6 meses.

     – Se apenas um deles confessar, ele será solto enquanto o silencioso cumprirá 10 anos de pena.

     – Se ambos traírem o cúmplice, cada um terá que permanecer na cadeia por 5 anos.

Olhando de forma geral é claro que a melhor escolha é ambos ficarem quietos, mas é possível confiar na escolha do parceiro? E quando há ódio, medo, desconfiança e ignorância envolvidos na decisão?

Em Planeta dos Macacos: O Confronto, segundo filme da recontagem da franquia clássica de 1968, o vírus do final do primeiro longa dizimou 99,8% da população humana. Na tentativa de melhorar a própria condição de vida após a tragédia os sobreviventes buscam reativar uma usina hidroelétrica das proximidades, mas lá também é o território onde estão símios que fugiram de São Francisco no fim do primeiro longa e portanto é necessária uma cooperação entre as duas espécies.

Dos lados dos macacos ainda temos Caesar – novamente muitíssimo bem interpretado por Andy Serkis – como líder. Os primatas agora vivem sob sua liderança e já agem como uma pequena tribo, com costumes próprios e organização. É importante salientar a frase escrita na parede de seu habitat e que define bem o grupo: “Macaco não mata macaco”. Já os humanos estão se reerguendo onde antes fora uma área de quarentena e tem como líder o ex-chefe de polícia Dreyfus (Gary Oldman), porém é através de Malcolm (Jason Clarke) que temos contato com o Caesar e seu grupo.

kobaSabemos que Caesar teve uma vida com humanos e ainda sente bastante carinho por eles, enquanto Malcolm é quem percebe que os símios são mais do que apenas animais e que, portanto, podem se entender e chegar a conclusão de que o melhor para os dois grupos é a cooperação. Porém Koba (Toby Kebbell), braço direito do líder dos primatas, ainda nutre ódio pelos seres humanos que o torturaram quando era uma cobaia. Koba tem uma personagem equivalente do outro lado, Carver (Kirk Acevedo), que culpa os primatas pelo vírus e consequentemente pelas bilhões de mortes ocasionadas. É com isso que o Dilema do Prisioneiro fica complicado.

O time de roteirista formado por Mark Bomback, Rick Jaffa e Amanda Silver consegue criar com essa mistura de sentimentos negativos o conflito que culmina nos acontecimentos da obra original. Se no primeiro filme da retcon eles faziam referência aos clássicos, nesse já foi possível trazer elementos de Planeta dos Macacos: A Origem. O trio também acertou, junto com o diretor Matt Reeves (Cloverfield), na evolução dos macacos durante a história. Se no começo eles se comunicavam quase que somente em libras, conforme eles ficam mais parecidos com os humanos,  mais verbal é a comunicação até atingir o ápice com a frase “Você não é um macaco”, um tipo desculpa para manter a consciência livre e que é similar ao que os humanos usaram para justificar vários massacres ao longo da história.

A produção acertou também na forma de apresentar todos os símios para os espectadores de uma forma que eles fossem facilmente identificáveis, seja através de algo escancarado como a cicatriz no filho de César e máscara artesanal utilizada nos macacos “curandeiros” ou nos pelos que se assemelham à cabelos compridos, que faz com que identifiquemos as fêmeas do grupo.

Os efeitos visuais de captura de movimento dos atores, que já eram espetaculares no título de 2011, aqui novamente surpreendem. Ao contrário do que Andy Serkis anda dizendo, é louvável o trabalho dos animadores em criar seres tão críveis e que sustentam a credibilidade de todas as ações que vemos em cena, no close que inicia o filme já tomamos um susto com o realismo que eles conseguiram alcançar.

Também não podemos tirar os méritos dos atores. Serkis continua sendo um mestre nessa arte e novamente faz algo surpreendente que serve para a academia lembrar que deve criar uma categoria no Oscar para esse tipo de trabalho. Dessa vez ele também tem o apoio de Toby Kebbell, que chega a roubar a cena em alguns momentos da projeção; a facilidade que ele tem para moldar suas feições em um determinado trecho é de fazer cair o queixo.

A parte menos atraente do longa é sem dúvida o núcleo dos humanos. Verdade que não prejudica o filme e tem a atuação do sempre competente Gary Oldman, mas personagens como a Ellie (Keri Russell) e Alexander (Kodi Smit-McPhee), respectivamente namorada e filho de Malcolm, não acrescentam quase nada à trama e servem apenas para desacelerar o ritmo.

Planeta dos Macacos: O Confronto evoluiu e mudou a fórmula do primeiro filme, tal qual uma boa continuação deve fazer. O fim deste deixa pontas para uma nova sequência e até aumenta a chance de fazer algo que estrague essa nova história, porém dessa vez a Fox tem meu voto de confiança e já estou na espera.

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