GUARDIÕES DA GALÁXIA (2014)

A BUNCH OF A-HOLES

“A BUNCH OF A-HOLES”

A sequência de abertura, que coloca o protagonista Peter Quill/Senhor das Estrelas (Chris Pratt) no cenário frio e ameaçador de um planeta aparentemente inabitado emula a cena desoladora de Alien – O Oitavo Passageiro (Ridley Scott, 1979) em que dois dos tripulantes da nave Nostromo saem para investigar a superfície de um planetoide desconhecido. Eis que a tensão construída até então é bruscamente interrompida sob os primeiros acordes da contagiante e nostálgica “Come and Get Your Love” do grupo Redbone. Em seguida, o que se vê é uma sequência inteira em homenagem à cena de abertura de Os Caçadores da Arca Perdida, com a diferença de que o perigo avistado no clássico de Spielberg/Lucas é substituído pelo deboche com que Star Lord lida com cada uma das “ameaças” em seu caminho. Desde sua primeira cena, Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy – James Gunn2014) é não só uma homenagem à atmosfera do cinema dos anos 70/80 como também uma inteligente brincadeira com os clichês que a geração dessa época aprendeu a amar.

Ao contrário do que parte da mídia flamulou por aí, o 10º filme do Marvel Studios não é aposta arriscada. Os personagens são realmente desconhecidos do grande público e de boa parcela dos fãs dos quadrinhos, mas a fórmula Marvel é preservada. Guardiões é mais um filme de origem, com cenas de ação bem executadas, personagens interessantes e um roteiro redondinho. Porém é mais. Guardiões se afasta geograficamente dos demais filmes do estúdio, construindo em outro ponto dos cosmos um novo universo a ser explorado, repleto de raças, planetas, culturas e cores que remetem qualquer um ao clima da fantasia espacial de Star Wars, enquanto a estrutura do roteiro (perdedores aleatórios juntos em defesa da galáxia) e principalmente o humor sujo e que não tem medo de ser tosco convergem diretamente aos filhotes de baixo orçamento da trilogia clássica de Lucas, como Mercenários das Galáxias (Battle Beyond the Stars – Jimmi T. Murakami, 1980) e O Último Guerreiro das Estrelas (The Last Starfighter – Nick Castle, 1984).

Kevin Feige, o chefão do Marvel Studios, justificou a contratação do diretor com o argumento de que queria um filme Marvel “MAIS James Gunn“. Conseguiu. Gunn já mostrou o dedo sarcástico sobre a cultura pop nos seus trabalhos anteriores, o divertido terror trash Seres Rastejantes (Slithers, 2006) e a comédia de ação e humor negro do ótimo Super (idem, 2010), crítica pessoal e sádica sobre o universo dos “super” heróis.  Guardiões bebe do sarcasmo do diretor e seu único compromisso parece em ser uma fita totalmente “descompromissada”.

montagem guardiões

O novo universo intergalático da Marvel já esbanja carisma e um visual fantástico, guardando espaço pra gente boa brilhar, mesmo que em pouco tempo de tela. Da esquerda para a direita: 1) O Ronan de Lee Pace tem seus motivos para tanto ódio; 2) Glenn Close e sua Nova Prime; 3) John C. Reilly ainda contido como um membro da Tropa Nova; 4) o parça do diretor, Michael Rooker entrega um Yondu divertidíssimo; 5) O Colecionador de Benicio Del Toro tem um acervo e tanto de easter eggs Marvel.

O longa trata da trajetória de Peter Quill, um humano abduzido da Terra ainda na infância que foi criado pelo saqueador galático Yondu (Michael Rooker). Ao roubar um misterioso orbe, Quill passa a ser perseguido pelos asseclas de Ronan, O Acusador (Lee Pace), que quer o artefato para concluir seus planos de vingança contra o planeta Xandar. Após um primeiro encontro conturbado, Quill, Gamora (Zoe Saldana), Rocket (Rocket Raccoon, como é chamado nos quadrinhos, na voz de Bradley Cooper) e Groot (uma árvore humanoide na falta de definição melhor, com a voz de Vin Diesel) são capturados pela Tropa Nova, a polícia intergalática do universo Marvel e levados a uma prisão espacial onde encontram o vingativo Drax, o Destruidor (Dave Bautista, grata surpresa). Os objetivos similares, que envolvem uma fuga da prisão, ganhar milhões de créditos com a venda do item cósmico, dar cabo do vilão e salvar a galáxia no processo, acabam obrigando esses desajustados a formarem uma aliança inesperada.

Os personagens são a liga que dá forma ao filme. Desde sua primeira cena, a dinâmica do grupo é de uma família disfuncional, como a Fox deveria ter feito desde o início com seu Quarteto Fantástico. Todos ali se odeiam por motivos diversos, mas aprendem a se amar por razões comuns. Os integrantes do grupo são donos de um carisma ímpar: Quill é o malandro no lugar errado, na hora errada, que não consegue passar um minuto sem se gabar (só ele mesmo se chama de Senhor das Estrelas e vibra quando alguém o reconhece pelo ‘título’) e vomitar referências oitentistas. Rocky (como carinhosamente chamam o Guaxinim) é nervoso, genial e dono do sarcasmo que faz o público pensar “fora da caixinha” (“Agora eu estou de pé. Estão felizes? Nos todos de pé agora… um bando de idiotas”). Groot é muito amor e um pouco de força bruta. Drax é ódio cego, descontrolado e literal, o que rende ótimas piadas com sua incapacidade de interpretar metáforas. Gamora é a única que acaba eclipsada, já que funciona bem mais como escada para uma nova tirada genial de Quill. Isso fica claro, por exemplo, na cena em que o Senhor das Estrelas explica um mito terrestre chamado Footloose.

O humor, aliás, é a camada que torna Guardiões uma obra diferenciada no universo Marvel. Por mais sutil que seja, quando se trata de um filme da Disney, não se espera piadas que unam na mesma frase “sexo”, “luz negra” e a arte de “Jason Pollock”. E qualquer sutileza vai para o espaço (perdão pelo trocadilho) quando Quill mostra o dedo do meio na já mais do que divulgada cena do reconhecimento dos presos pela Tropa Nova (detalhe importante: nos trailers, a mão de Quill é apagada por um borrão de imagem, censura que no corte final não aparece. Pontos pra Marvel/Disney novamente). Sobra espaço, inclusive, para o humor negro no plano de fuga da prisão, mirabolantemente criado por Rocket.

Não é só nas piadas, contudo, que o humor se espalha no filme. Toda a trilha sonora, composta por músicas dos anos 70, não só é o alicerce terrestre de Quill, como funciona como uma quebra interessante do escopo épico de certas cenas. É através dessa estratégia que somos surpreendidos, por exemplo, com a reação impagável de um dos Guardiões diante do megalomaníaco discurso final de Ronan. Como se não bastasse, a trilha foi escolhida a dedo por Gunn (segundo informações do CinemaBlend, o diretor partiu de uma seleção musical de 500 canções, chegando então a 120 e finalmente à lista final) para que cada música fosse parte da própria narrativa, o que se traduz em um acerto louvável, recheando a fita de momentos memoráveis, em especial destaque para a dançante “I Want You Back” do Jackson Five, que encerra a projeção e “Hooked on a Feeling” do Blue Swed, antes marcada pelo filme de estreia de Quentin Tarantino, Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), e que agora parece indissociável do clima descontraído de Guardiões.

Em se tratando de uma aventura espacial, repleta dos mais diversos cenários e raças alienígenas, outro valor que se destaca em Guardiões e o distancia dos primos do cinema B oitentista é a qualidade da maquiagem, dos efeitos digitais e do design de produção (cenários ricos em detalhes, com destaque para o cuidado dedicado ao interior da Milano, a nave de Quill, repleta de referências ao passado terráqueo do herói). Um filme que se apoia em dois personagens principais criados totalmente por computação gráfica (Rocket e Groot) tem que confiar bastante no trabalho de seus técnicos em CGI. E o resultado é mesmo impressionante: Groot, apesar de ainda ser uma floresta ambulante, ganha o crédito de ser a única árvore falante do cinema capaz de criar empatia no espectador (sorry, Ents!) e Rocket é um primor de detalhes. O personagem foge de seu visual cartunizado nos quadrinhos e no filme é retratado com extremo realismo, peludo, encantador e cheio de dentes como qualquer guaxinim do mundo real é.

montagem guardiões 2

Da esquerda para a direita: 1) Quebra de paradigmas – gestos obscenos num filme da Disney; 2) perseguições espaciais no melhor estilo Star Wars; 3) Rocket fazendo o que ama; 4) Star Lord é malandro, garanhão e inclusive dá nome para sua nave. Qualquer semelhança com Han Solo não é mera coincidência.

Finalmente, a fotografia de Ben Davis, que já trabalhou em Kick Ass, também é um acerto. A enxurrada de cores vívidas captadas pelas lentes do diretor de fotografia consegue destacar o visual fantástico do longa, próximo dos absurdos dos anos 80 e também da origem quadrinhesca dos personagens.

Do visual do walkman de Quill, idêntico ao usado por Bacon em Footloose, até alguns takes inspirados que emulam Space Invaders (ou Gálaga) e os seriados japoneses Tokusatsus, o filme de Gunn é uma colcha de retalhos pops muito bem costurada, carregada por um quinteto de personagens principais cativante.

A comparação imediata feita com o novo filme da Marvel ainda é Star Wars. O que se esquece a mídia especializada é que apesar de vermos na dinâmica dos Guardiões as mesmas interações que encontramos entre Han Solo, Chewbacca, Leia, R2D2 e C3PO, este é um filme sarcástico o suficiente para não existir espaço para o herói clássico à lá Luke Skywalker. Gunn declarou que seu objetivo era atrair o público para um bando de perdedores que unidos são melhores que a soma de suas unidades. Há um quê de psicologia nisso: nós tendemos a nos empatizar bem mais com os deslocados à procura de seu lugar ao sol do que com aqueles personagens perfeitos e sem conflitos emocionais. É o amor do espectador pela jornada. Os desajustados tendem a passar por conflitos e tentações antes de chegar à glória e à vitória, levando o público a torcer por seu destino. Os perfeitos já estão lá e não levam o espectador para qualquer jornada. Não é à toa que todo mundo prefere torcer pro Logan ao invés de Scott ou pro Batman ao invés do Superman.

A honra inabalável do Capitão “Steve Rogers” América, o Martelo Mjolnir que só será erguido pelos dignos e a confiança inabalável do playboy Tony Stark rendem e ainda vão render muitos sorrisos deste escriba. Mas que me perdoem os Vingadores: por hoje, a sujeira e a harmonia desse “bando de idiotas” chamados Guardiões da Galáxia parecem bem mais brilhantes.

AVALIAÇÃO:

NOVE TIROS (2)9 tiros em 10.

PS: Aguarde até o fim dos créditos para assistir uma cena que aparentemente não tem ligação direta com nada prometido no universo cinematográfico da Marvel, mas ainda assim é um desbunde para quem cresceu nos anos 80.

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